Se você é empresário ou gestor, provavelmente já ouviu falar que “quem ganha até R$ 5.000,00 não vai mais pagar Imposto de Renda”. A notícia rodou os principais veículos de comunicação, gerou discussões nas redes sociais e, claro, levantou muitas dúvidas.
Mas o que realmente mudou? Como isso funciona na prática? E, mais importante: o que essas alterações significam para o seu negócio, para sua folha de pagamento e para o planejamento financeiro da sua empresa?
Neste artigo, a gente vai destrinchar cada detalhe das novas regras do IRPF 2026, com exemplos práticos, cálculos reais e uma visão estratégica sobre o impacto dessas mudanças no seu dia a dia empresarial.
Contexto: O que trouxe essas mudanças?
A Lei nº 15.270/2025, publicada em novembro de 2025, estabeleceu novas regras de cálculo do Imposto de Renda Pessoa Física com vigência a partir de 1º de janeiro de 2026.
A mudança mais comentada foi a isenção para quem recebe até R$ 5.000,00 mensais. Mas é importante entender: a tabela progressiva do IR não mudou. O que aconteceu foi a criação de uma nova tabela de redução do imposto, que funciona como um desconto aplicado após o cálculo tradicional.
Essa distinção é fundamental para entender como os valores são calculados — e para evitar confusões na hora de fazer a folha de pagamento ou orientar seus colaboradores.
A tabela progressiva continua a mesma
Desde maio de 2025, a tabela do IR já estava assim:
| Base de Cálculo (R$) | Alíquota (%) | Parcela a Deduzir (R$) |
| Até 2.428,80 | 0% | 0 |
| De 2.428,81 até 2.826,65 | 7,5% | 182,16 |
| De 2.826,66 até 3.751,05 | 15% | 394,16 |
| De 3.751,06 até 4.664,68 | 22,5% | 675,49 |
| Acima de 4.664,68 | 27,5% | 908,73 |
Essa tabela não foi alterada. Ela continua sendo usada para calcular o imposto antes da aplicação da nova redução.
A novidade: tabela de redução do imposto
A grande mudança está na tabela de redução, que funciona assim:
| Rendimento Tributável Mensal | Redução do Imposto |
| Até R$ 5.000,00 | Até R$ 312,89 (zerando o imposto) |
| De R$ 5.000,01 até R$ 7.350,00 | Redução decrescente calculada por fórmula |
| Acima de R$ 7.350,00 | Sem redução |
Como funciona essa redução?
- Para quem ganha até R$ 5.000,00: o imposto é calculado normalmente pela tabela progressiva, mas depois aplica-se uma redução de até R$ 312,89 — o suficiente para zerar o valor devido.
- Para quem ganha de R$ 5.000,01 até R$ 7.350,00: a redução diminui progressivamente, usando a fórmula:
- Redução = R$ 978,62 – (0,133145 × rendimento tributável)
- Para quem ganha acima de R$ 7.350,00: não há redução. O cálculo continua exatamente como antes.
Entendendo o conceito de “rendimento tributável”
Aqui está um ponto que gera confusão: para saber em qual faixa da tabela de redução você se enquadra, o que conta é o rendimento bruto tributável, não a base de cálculo após as deduções.
Exemplo prático:
Maria recebe R$ 5.000,00 de salário bruto e tem R$ 510,00 de INSS descontado.
- Rendimento tributável (para enquadramento na tabela de redução): R$ 5.000,00
- Base de cálculo do IR (após dedução do INSS): R$ 4.490,00
Mesmo que a base de cálculo seja R$ 4.490,00, Maria se enquadra na faixa de “até R$ 5.000,00” da tabela de redução.
Passo a passo do cálculo do novo IRPF
Vamos entender o processo completo:
Passo 1: Calcular o IR pela tabela progressiva
Use a tabela tradicional, aplicando as deduções permitidas:
- INSS
- Dependentes (R$ 189,59 por dependente)
- Pensão alimentícia
- Previdência privada
- Ou o desconto simplificado de R$ 607,20
Passo 2: Identificar o rendimento tributável
Considere o valor bruto antes das deduções.
Passo 3: Aplicar a redução
Conforme a faixa de rendimento:
- Até R$ 5.000,00: redução de até R$ 312,89
- De R$ 5.000,01 até R$ 7.350,00: aplicar a fórmula
- Acima de R$ 7.350,00: sem redução
Passo 4: Calcular o imposto final
IR devido = IR calculado – Redução
Exemplos detalhados: quanto cada perfil vai pagar?
Vamos analisar situações reais com todos os detalhes dos cálculos.
Caso 1: Bruno — Salário de R$ 3.036,00
Dados:
- Salário bruto: R$ 3.036,00
- INSS: R$ 257,00
- 1 dependente: R$ 189,59
Cálculo do IR pela tabela progressiva:
- Base de cálculo: R$ 3.036,00 – R$ 257,00 – R$ 189,59 = R$ 2.589,41
- Alíquota: 7,5%
- IR calculado: (R$ 2.589,41 × 7,5%) – R$ 182,16 = R$ 12,05
Aplicação da redução:
- Rendimento tributável: R$ 3.036,00 (abaixo de R$ 5.000,00)
- Redução aplicada: R$ 12,05 (limitada ao valor do IR calculado)
- IR devido: R$ 0,00
Impacto: Bruno economiza R$ 12,05 por mês, ou R$ 144,60 por ano.
Caso 2: Maria — Salário de R$ 3.500,00
Dados:
- Salário bruto: R$ 3.500,00
- INSS: R$ 313,00
- Previdência privada: R$ 85,00
Cálculo do IR:
- Base de cálculo: R$ 3.500,00 – R$ 313,00 – R$ 85,00 = R$ 3.102,00
- Alíquota: 15%
- IR calculado: (R$ 3.102,00 × 15%) – R$ 394,16 = R$ 71,14
Aplicação da redução:
- Rendimento tributável: R$ 3.500,00
- Redução aplicada: R$ 71,14
- IR devido: R$ 0,00
Impacto: Maria economiza R$ 71,14 por mês, ou R$ 853,68 por ano.
Caso 3: Júlia — Salário de R$ 5.000,00
Dados:
- Salário bruto: R$ 5.000,00
- INSS: R$ 509,00
- 1 dependente: R$ 189,59
Cálculo do IR:
- Base de cálculo: R$ 5.000,00 – R$ 509,00 – R$ 189,59 = R$ 4.301,41
- Alíquota: 22,5%
- IR calculado: (R$ 4.301,41 × 22,5%) – R$ 675,49 = R$ 292,33
Aplicação da redução:
- Rendimento tributável: R$ 5.000,00
- Redução aplicada: R$ 292,33
- IR devido: R$ 0,00
Impacto: Júlia economiza R$ 292,33 por mês, ou R$ 3.507,96 por ano.
Caso 4: João — Salário de R$ 7.200,00
Dados:
- Salário bruto: R$ 7.200,00
- INSS: R$ 817,00
Cálculo do IR:
- Base de cálculo: R$ 7.200,00 – R$ 817,00 = R$ 6.383,00
- Alíquota: 27,5%
- IR calculado: (R$ 6.383,00 × 27,5%) – R$ 908,73 = R$ 846,60
Aplicação da redução:
- Rendimento tributável: R$ 7.200,00 (entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350,00)
- Fórmula: R$ 978,62 – (0,133145 × 7.200,00) = R$ 19,98
- IR devido: R$ 846,60 – R$ 19,98 = R$ 826,62
Impacto: João economiza R$ 19,98 por mês, ou R$ 239,76 por ano.
Caso 5: Ana — Salário de R$ 5.000,00 (com desconto simplificado)
Dados:
- Salário bruto: R$ 5.000,00
- INSS: R$ 510,00
- Optante pelo desconto simplificado: R$ 607,20
Cálculo do IR:
- Base de cálculo: R$ 5.000,00 – R$ 607,20 = R$ 4.392,80
- Alíquota: 22,5%
- IR calculado: (R$ 4.392,80 × 22,5%) – R$ 675,49 = R$ 312,89
Aplicação da redução:
- Rendimento tributável: R$ 5.000,00
- Redução aplicada: R$ 312,89
- IR devido: R$ 0,00
Impacto: Ana economiza R$ 312,89 por mês, ou R$ 3.754,68 por ano.
Caso 6: Carlos — Salário de R$ 10.000,00
Dados:
- Salário bruto: R$ 10.000,00
- INSS: R$ 908,86 (teto)
Cálculo do IR:
- Base de cálculo: R$ 10.000,00 – R$ 908,86 = R$ 9.091,14
- Alíquota: 27,5%
- IR calculado: (R$ 9.091,14 × 27,5%) – R$ 908,73 = R$ 1.591,33
Aplicação da redução:
- Rendimento tributável: R$ 10.000,00 (acima de R$ 7.350,00)
- Redução aplicada: R$ 0,00
- IR devido: R$ 1.591,33
Impacto: Nenhuma mudança para Carlos.
Tabela comparativa de impacto
| Salário Bruto | IR Antes (2025) | IR Depois (2026) | Economia Mensal | Economia Anual |
| R$ 3.036,00 | R$ 12,05 | R$ 0,00 | R$ 12,05 | R$ 144,60 |
| R$ 3.500,00 | R$ 71,14 | R$ 0,00 | R$ 71,14 | R$ 853,68 |
| R$ 5.000,00 | R$ 292,33 | R$ 0,00 | R$ 292,33 | R$ 3.507,96 |
| R$ 7.200,00 | R$ 846,60 | R$ 826,62 | R$ 19,98 | R$ 239,76 |
| R$ 10.000,00 | R$ 1.591,33 | R$ 1.591,33 | R$ 0,00 | R$ 0,00 |
E o décimo terceiro salário?
A redução também se aplica ao 13º salário, que tem tributação exclusiva na fonte.
Isso significa que se o seu colaborador recebe até R$ 5.000,00 mensais, o décimo terceiro também terá imposto zerado.
Exemplo:
Júlia, com salário de R$ 5.000,00, vai receber o 13º sem desconto de IR. Ela economiza mais R$ 292,33 no final do ano, além dos R$ 3.507,96 já economizados nos 12 meses regulares.
Economia total anual de Júlia: R$ 3.800,29
Múltiplas fontes de renda: como funciona?
Se um colaborador seu tem outra fonte de renda (como um segundo emprego, aluguéis ou trabalho autônomo), cada fonte pagadora aplica a tabela de redução de forma independente.
Mas atenção: na Declaração de Ajuste Anual, todas as rendas são somadas e o IR é recalculado. Se houver imposto a pagar, será cobrado na declaração. Se houver restituição, será devolvido.
Exemplo prático:
Pedro trabalha em duas empresas:
- Empresa A: R$ 3.000,00/mês
- Empresa B: R$ 2.500,00/mês
- Total mensal: R$ 5.500,00
Cada empresa aplica a redução individualmente, zerando o IR nas duas fontes. Mas na declaração anual de 2027 (ano-base 2026), a Receita vai somar os R$ 66.000,00 anuais e recalcular o imposto.
Nesse caso, Pedro provavelmente terá imposto a pagar na declaração, pois a renda anual total ultrapassa R$ 60.000,00.
A redução também vale para a declaração anual
A partir da declaração de 2027 (ano-calendário 2026), há uma tabela de redução anual:
| Rendimento Anual Tributável | Redução do Imposto |
| Até R$ 60.000,00 | Até R$ 2.694,15 (zerando o imposto) |
| De R$ 60.000,01 até R$ 88.200,00 | Redução decrescente por fórmula |
| Acima de R$ 88.200,00 | Sem redução |
Fórmula para a faixa intermediária:
Redução = R$ 8.429,73 – (0,095575 × rendimentos anuais tributáveis)
Exemplo de declaração anual:
Situação de João em 2026:
- Rendimentos tributáveis no ano: R$ 80.000,00
- INSS pago: R$ 8.900,00
- Despesas médicas: R$ 5.000,00
Opção 1: Deduções legais
- Base de cálculo: R$ 80.000,00 – R$ 8.900,00 – R$ 5.000,00 = R$ 66.100,00
- IR calculado: (R$ 66.100,00 × 27,5%) – R$ 10.904,76 = R$ 7.272,74
Opção 2: Desconto simplificado (mais vantajoso)
- Desconto: R$ 16.000,00 (20% de R$ 80.000,00)
- Base de cálculo: R$ 80.000,00 – R$ 16.000,00 = R$ 64.000,00
- IR calculado: (R$ 64.000,00 × 27,5%) – R$ 10.904,76 = R$ 6.695,24
Aplicação da redução anual:
- Fórmula: R$ 8.429,73 – (0,095575 × 80.000,00) = R$ 783,73
- IR devido: R$ 6.695,24 – R$ 783,73 = R$ 5.911,51
O desconto simplificado aumentou
Outra mudança importante: o limite do desconto simplificado anual passou de R$ 16.754,34 (ano-base 2025) para R$ 17.640,00 (ano-base 2026).
O desconto simplificado substitui todas as deduções por um valor fixo de 20% dos rendimentos tributáveis, limitado ao teto acima.
Quando vale a pena usar o desconto simplificado?
- Quando você não tem muitas despesas dedutíveis
- Quando suas despesas somam menos de 20% da sua renda
- Quando você quer simplificar a declaração
Impacto para empresas: 7 pontos de atenção
1. Atualização do sistema de folha
Seu sistema precisa estar configurado para aplicar a nova tabela de redução a partir de janeiro de 2026. Entre em contato com seu contador ou fornecedor de software para garantir que está tudo ajustado.
2. Comunicação com o time
Muitos colaboradores vão sentir o aumento no salário líquido sem entender de onde veio. Comunicar essas mudanças de forma clara evita confusão e mostra que a empresa está atenta ao bem-estar financeiro do time.
3. Impacto no fluxo de caixa
Para a empresa, não há mudança direta no custo da folha. Mas colaboradores com mais dinheiro no bolso podem significar maior poder de compra, menos pedidos de adiantamento e até melhor clima organizacional.
4. Recrutamento e retenção
Se você está contratando na faixa de R$ 4.000 a R$ 5.000, os candidatos vão perceber que o salário líquido ficou mais atrativo. Isso pode facilitar negociações e melhorar sua competitividade no mercado de talenho.
5. Estruturação de cargos e salários
Vale revisar a estrutura salarial da empresa. Às vezes, um ajuste de R$ 200 ou R$ 300 pode fazer diferença significativa no líquido do colaborador, especialmente nas faixas próximas aos limites da tabela.
6. Planejamento tributário pessoal dos sócios
Se você é sócio e retira pró-labore, essas mudanças também te afetam. Converse com seu contador para avaliar se vale a pena ajustar o valor do pró-labore ou a forma de distribuição de lucros.
7. Atenção na declaração anual
Mesmo que o IR mensal esteja zerado para alguns colaboradores, eles ainda precisam fazer a declaração anual se a renda ultrapassar o limite de obrigatoriedade (que em 2026 é de R$ 30.639,90).
Perguntas frequentes
1. Se meu salário é R$ 5.001,00, eu saio perdendo?
Não. A redução é decrescente, não há “pulo” brusco. Com R$ 5.001,00, você ainda terá uma redução de aproximadamente R$ 312,76 no imposto.
2. Posso pedir para o RH não aplicar a redução?
Tecnicamente sim, mas não faz sentido. A redução é um benefício — você pagaria mais imposto à toa.
3. Se eu tiver duas fontes de renda, posso usar a redução nas duas?
Sim, cada fonte aplica a redução de forma independente. Mas na declaração anual, tudo é ajustado e você pode ter que pagar a diferença.
4. A redução vale para aposentados?
Sim. A redução se aplica a todos os rendimentos tributáveis pela tabela progressiva, incluindo aposentadorias, pensões e aluguéis.
5. E para profissionais autônomos?
Sim. Quem recolhe carnê-leão também tem direito à redução, calculada sobre a soma de todos os rendimentos tributáveis do mês.
Por que entender essas mudanças é estratégico para sua empresa
Pode parecer que essas alterações no IRPF são apenas uma questão tributária pessoal dos colaboradores. Mas a verdade é que impactam diretamente a gestão do seu negócio.
Quando você entende a fundo como funcionam essas regras, consegue:
- Tomar decisões mais inteligentes sobre estrutura de cargos e salários
- Comunicar de forma clara com o time sobre mudanças que afetam o bolso de cada um
- Planejar melhor o impacto financeiro de contratações e promoções
- Evitar surpresas na hora de fechar a folha ou na declaração anual
- Identificar oportunidades de tornar sua oferta salarial mais competitiva sem aumentar custos
Além disso, colaboradores que entendem sua própria situação financeira tendem a ser mais engajados e menos ansiosos com questões de dinheiro.
A clareza financeira que sua empresa precisa
Se você chegou até aqui, percebeu que essas mudanças no IRPF não são tão simples quanto “quem ganha até R$ 5.000,00 está isento”. Há nuances, fórmulas, faixas intermediárias e impactos que vão além do óbvio.
E é exatamente por isso que a Marco Zero existe.
A gente não acredita em “decoreba” de tabelas ou em respostas genéricas. Acreditamos que cada empresa tem sua realidade, seus desafios específicos e merece uma análise financeira que faça sentido para o seu contexto.
Você sabe exatamente quanto cada mudança tributária impacta o seu fluxo de caixa? Consegue projetar o custo real de uma contratação considerando todas as variáveis? Tem clareza sobre como estruturar salários de forma estratégica?
Se a resposta é “ainda não tenho essa visão completa”, a gente pode ajudar.
Na Marco Zero, a gente transforma informação financeira complexa em decisões claras. Olhamos para os seus números, entendemos o seu negócio e traçamos junto com você o caminho mais estratégico.
Porque no fim do dia, o que importa não é só pagar menos imposto — é ter o controle total das suas finanças e crescer com segurança.
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