Se você é empresário ou gestor, provavelmente já percebeu que o Imposto de Renda parece pesar cada vez mais no bolso, mesmo quando os salários não aumentam na mesma proporção.
Não é impressão. É matemática pura.
Entre 2015 e 2023, enquanto a inflação corria solta, a tabela do IRPF ficou praticamente congelada. O resultado? Milhões de brasileiros passaram a pagar mais imposto, não porque ficaram mais ricos, mas simplesmente porque a tabela não acompanhou a realidade econômica.
Vamos entender essa história completa — desde o último grande reajuste até as mudanças revolucionárias que entram em vigor em janeiro de 2026.
2015: O último reajuste (que demoraria 8 anos para se repetir)
Em abril de 2015, a tabela do IRPF foi atualizada. A faixa de isenção subiu para R$ 1.903,98 — valor que permaneceria inalterado pelos próximos oito anos.
Tabela progressiva de 2015:
| Base de Cálculo (R$) | Alíquota (%) | Parcela a Deduzir (R$) |
| Até 1.903,98 | 0% | 0 |
| De 1.903,99 até 2.826,65 | 7,5% | 142,80 |
| De 2.826,66 até 3.751,05 | 15% | 354,80 |
| De 3.751,06 até 4.664,68 | 22,5% | 636,13 |
| Acima de 4.664,68 | 27,5% | 869,36 |
Na época, o salário-mínimo era de R$ 788,00. A faixa de isenção equivalia a 2,4 salários-mínimos. Ninguém imaginava que essa seria a última atualização substancial por quase uma década.
2016-2022: O grande congelamento
Por sete anos consecutivos, a tabela do IRPF não mudou uma vírgula.
Enquanto isso, a inflação avançava. E muito.
O impacto na prática:
Vamos usar um exemplo real para visualizar o problema:
João, analista financeiro em 2015:
- Salário: R$ 5.000,00
- IRPF mensal: R$ 466,64
João em 2022:
- Salário corrigido pela inflação: R$ 7.500,00 (mantendo o poder de compra)
- IRPF mensal: R$ 1.196,64
- Diferença: R$ 730,00 a mais por mês
João não ficou mais rico. Ele só manteve o poder de compra. Mas passou a pagar 156% mais imposto.
Essa é a perversidade da defasagem: funciona como um aumento invisível de tributo, atingindo especialmente a classe média assalariada.
Durante esse período:
- Inflação acumulada: aproximadamente 50%
- Reajuste da tabela: 0%
- Defasagem total desde 1996: mais de 148%
Houve promessas. Muitas promessas. Campanhas eleitorais em 2018 e 2022 prometeram isenção para quem ganha até 5 salários-mínimos. Mas nada aconteceu. A tabela seguiu congelada.
2023: Finalmente, um pequeno alívio
Após oito anos de congelamento, em maio de 2023, veio o primeiro ajuste através da Lei nº 13.149/2023.
Principais mudanças:
- Faixa de isenção: de R$ 1.903,98 para R$ 2.112,00 (aumento de 10,93%)
- Desconto simplificado: R$ 528,00, garantindo isenção efetiva até R$ 2.640,00 (dois salários-mínimos)
Tabela progressiva de maio/2023:
| Base de Cálculo (R$) | Alíquota (%) | Parcela a Deduzir (R$) |
| Até 2.112,00 | 0% | 0 |
| De 2.112,01 até 2.826,65 | 7,5% | 158,40 |
| De 2.826,66 até 3.751,05 | 15% | 370,40 |
| De 3.751,06 até 4.664,68 | 22,5% | 651,73 |
| Acima de 4.664,68 | 27,5% | 884,96 |
Foi comemorado como avanço, mas criticado por ser insuficiente. Mesmo com o reajuste, a defasagem acumulada desde 1996 permanecia acima de 145%.
Se a tabela tivesse sido corrigida integralmente pela inflação, a faixa de isenção deveria estar em torno de R$ 4.700,00, não R$ 2.112,00.
2024-2025: Ajustes técnicos
Entre fevereiro de 2024 e maio de 2025, o governo realizou ajustes para acompanhar o reajuste do salário-mínimo, mantendo a política de isenção para quem ganha até dois salários-mínimos.
Fevereiro de 2024:
- Faixa de isenção: R$ 2.259,20
- Desconto simplificado: R$ 564,80
- Isenção efetiva: até R$ 2.824,00
Maio de 2025:
- Faixa de isenção: R$ 2.428,80
- Desconto simplificado: R$ 607,20
- Isenção efetiva: até R$ 3.036,00
Esta última tabela está em vigor até 31 de dezembro de 2025.
Novembro de 2025: A grande virada
Em 26 de novembro de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.270/2025 — a mudança mais significativa no IRPF desde 2015.
As novidades (vigentes a partir de janeiro de 2026):
1. Isenção para rendimentos de até R$ 5.000,00
Não através de mudança na tabela progressiva, mas sim através de uma nova tabela de redução do imposto.
2. Redução decrescente para rendimentos de R$ 5.000,01 até R$ 7.350,00
Calculada por uma fórmula matemática que diminui progressivamente o benefício.
3. Tributação mínima para altas rendas
Alíquota de 10% sobre rendimentos anuais acima de R$ 600 mil.
4. Tributação de lucros e dividendos
10% sobre distribuições mensais acima de R$ 50 mil.
Tabela de redução mensal (janeiro/2026):
| Rendimento Tributável | Redução do Imposto |
| Até R$ 5.000,00 | Até R$ 312,89 (zerando o imposto) |
| De R$ 5.000,01 até R$ 7.350,00 | Decrescente por fórmula |
| Acima de R$ 7.350,00 | Sem redução |
O impacto real: quanto você vai economizar em 2026?
Vamos aos números práticos. Aqui está quanto cada faixa salarial economizará mensalmente:
| Salário Bruto | IR em 2025 | IR em 2026 | Economia Mensal | Economia Anual |
| R$ 3.000,00 | R$ 25,00 | R$ 0,00 | R$ 25,00 | R$ 300,00 |
| R$ 4.000,00 | R$ 147,00 | R$ 0,00 | R$ 147,00 | R$ 1.764,00 |
| R$ 5.000,00 | R$ 292,33 | R$ 0,00 | R$ 292,33 | R$ 3.507,96 |
| R$ 6.000,00 | R$ 505,64 | R$ 325,89 | R$ 179,75 | R$ 2.157,00 |
| R$ 7.000,00 | R$ 780,64 | R$ 734,04 | R$ 46,60 | R$ 559,20 |
| R$ 10.000,00 | R$ 1.591,33 | R$ 1.591,33 | R$ 0,00 | R$ 0,00 |
Observação importante: colaboradores na faixa de até R$ 5.000,00 vão sentir um aumento real no salário líquido em janeiro de 2026, sem que você precise mexer no salário bruto.
A defasagem histórica em números
Para entender o tamanho do problema que a Lei de 2025 tenta (parcialmente) resolver:
Evolução de um profissional que sempre ganhou 5 salários-mínimos:
2015:
- 5 salários-mínimos: R$ 3.940,00
- IRPF mensal: R$ 228,87
2020:
- 5 salários-mínimos: R$ 5.225,00
- IRPF mensal: R$ 538,88
- Aumento no imposto: 135%
2025:
- 5 salários-mínimos: R$ 7.590,00
- IRPF mensal: R$ 1.174,75
- Aumento no imposto desde 2015: 413%
2026 (com a nova lei):
- 5 salários-mínimos: R$ 7.590,00
- IRPF mensal: R$ 1.126,41
- Economia de R$ 48,34/mês
Defasagem total acumulada (1996-2025): aproximadamente 150%
Se a tabela de 1996 tivesse sido corrigida integralmente pela inflação até 2025, a faixa de isenção deveria estar em torno de R$ 7.200,00, não R$ 2.428,80.
A Lei de 2025, ao estabelecer isenção até R$ 5.000,00, reduz significativamente essa defasagem, mas ainda não a elimina completamente.
O que vem pela frente? 2027-2030
Com a aprovação da Lei de 2025, algumas tendências se desenham:
1. Possível indexação automática
O artigo 6º da Lei determina que o governo deve enviar ao Congresso, em até um ano, um projeto de lei com previsão de atualização automática dos valores do IRPF. Isso poderia significar correção anual pela inflação, evitando novos períodos de congelamento.
2. Maior progressividade
A introdução da tributação mínima de 10% para rendimentos acima de R$ 600 mil anuais sinaliza uma tendência de maior progressividade no sistema tributário brasileiro.
3. Reforma tributária mais ampla
As mudanças de 2025 no IRPF acontecem em paralelo à reforma tributária sobre consumo. Nos próximos anos, veremos simplificação adicional das regras e harmonização com os novos tributos.
4. Desafios fiscais
A isenção até R$ 5.000,00 tem custo fiscal estimado entre R$ 35 e R$ 40 bilhões anuais. Para compensar, o governo precisará aumentar a arrecadação sobre altas rendas e combater elisão fiscal.
O que fazer agora? 5 ações práticas para empresários
1. Revise sua estrutura de remuneração
Com a isenção até R$ 5.000,00, vale revisar a estrutura de cargos e salários, o equilíbrio entre pró-labore e distribuição de lucros, e benefícios fiscalmente eficientes.
2. Planeje 2026 com antecedência
Atualize seu sistema de folha de pagamento, reveja projeções de fluxo de caixa considerando o novo cenário e avalie o impacto da tributação de lucros e dividendos (se aplicável).
3. Comunique as mudanças para sua equipe
Colaboradores que ganham até R$ 5.000,00 vão perceber aumento no salário líquido. Explique de onde vem esse “aumento” e como funcionará a partir de janeiro.
4. Fique atento às próximas mudanças
A política de atualização automática da tabela, se aprovada, pode trazer previsibilidade. Mas também pode gerar ajustes anuais que impactam seu planejamento.
5. Considere consultoria especializada
Se você tem rendimentos elevados (acima de R$ 600 mil anuais) ou distribui lucros significativos, as novas regras de tributação mínima exigem planejamento cuidadoso.
Conclusão: de onde viemos e para onde vamos
A história do IRPF entre 2015 e 2026 é uma história de defasagem, promessas não cumpridas e, finalmente, uma correção significativa — ainda que não completa.
O que ficou para trás:
- Oito anos de congelamento (2015-2023)
- Defasagem acumulada de 150% desde 1996
- Milhões de brasileiros pagando mais imposto sem ganhar mais
O que mudou em 2025:
- Isenção real até R$ 5.000,00
- Redução para rendimentos até R$ 7.350,00
- Tributação de altas rendas
O que vem pela frente:
- Possível indexação automática da tabela
- Mais progressividade no sistema tributário
- Desafios de equilíbrio fiscal
A grande questão é: finalmente saímos do ciclo de congelamentos prolongados seguidos de ajustes emergenciais? Ou voltaremos, daqui a alguns anos, ao mesmo problema?
A resposta depende da aprovação da política de atualização automática. Se isso se concretizar, teremos finalmente um sistema mais previsível e justo.
Enquanto isso, cabe a cada empresário entender essas mudanças, planejar com inteligência e tomar decisões estratégicas baseadas em informação sólida.
Porque no fim do dia, não é sobre quanto imposto você paga. É sobre ter clareza do que está acontecendo e controle sobre suas finanças.
Você tem clareza sobre o impacto fiscal das mudanças na sua empresa?
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